Texto para a exposição/obra 'passou a ser o que já era' de Hugo Castro, apresentada a 20.04.2018 na Galeria Dentro, Porto.


I
Um destruir prático.

II
Uma cadência métrica.

III
Um desfasamento da forma.

IIII
Um protocolo de espaço.


Esta é uma ação tão simples como óbvia:
Em vez de fazer, desfazer. Em vez de por, tirar. Em vez de aumentar, reduzir. Um fazer ao contrário à procura da circularidade entre montar e desmontar. Face ao convite da galeria Dentro, Hugo Castro opta por confundir propositadamente as expectativas assentes nele e no próprio espaço, baralhando os tempos habituais de uma exposição com o seu conteúdo. Numa quase anti-ação, as paredes da galeria são metodicamente desmanchadas, catalogadas e compactadas numa nova configuração que pretende continuar verdadeiramente a ser a o que foi. Uma galeria dentro de uma sala que continua a ser uma galeria dentro de uma sala.
Mas ao desmanchar estas paredes, Hugo Castro explora mais do que a configuração do que pode ser ou não aquela sala: explora as fronteiras entre o que é ‘ser coisa’ e o que é ‘ser função’, e procura agressivamente até onde estas podem ser esticadas, manipuladas e deturpadas, sem contudo perderem o seu sentido inicial. Uma ação circular, custosa e inútil que testa até onde é que uma coisa é essa mesma coisa. Uma ação que entra na orbita da questão do que veio primeiro, se o fazer ou o desfazer, e de quando é que um é o outro e vice versa. Uma ação que embora aparente levar a um ponto de não retorno, comporta ainda a possibilidade da sua reconstrução. Um desfazer organizado que sugere um refazer. Esta exploração do que é, não é, ainda é ou deixa de ser é um tema recorrente no seu trabalho, que tantas vezes explora os extremos possíveis da desconstrução.
Aqui ativam-se os extremos do que pode ser considerado ou não uma parede, uma galeria, um espaço. Experimenta-se desconstruir ao máximo e da forma mais prática possível, até que a sala possa ser o que com certeza já deixou de ser. Quando é que gesso passa a ser parede e quando é que uma parede passa a ser entulho? Pode uma coisa perder o seu sentido prático sem deixar de ser o seu sentido adquirido?
O espaço trabalhado, por sua vez, ao ser um espaço expositivo, levanta também ele outras questões de limite: as do espaço artístico e da ação artística. Ao desconstruir em vez de construir, estabelece-se um comentário crítico sobre o que se espera de uma galeria ou de uma exposição. Um comentário que não é tanto uma ação de rebeldia e contra regra, mas antes de curiosidade sobre como funcionam certas configurações e espectativas quando postas de outra forma. O perguntar ‘como é que isto funcionaria se...’. Porque para o Hugo os limites não são o fim, mas antes a sua área de eleição para experimentar outras possibilidades, novas, velhas ou simplesmente diferentes.
E finalmente esta ação, enquanto método organizado de desconstrução do fazer e desfazer consegue algo ainda mais incrível: Criar tempo. Ao desfazer algo tão exaustivamente, simplesmente para no final o refazer como se nada tivesse acontecido, esta ação explora a 2a lei da termodinâmica que dita que desordem gera tempo e tempo gera desordem. Porque tempo e desordem caminham sempre na mesma direção.
O movimento do tempo é o movimento da entropia, do caos e da complexidade, e toda a ação é energia que gera inevitavelmente mais desordem. Tempo é então, numa das suas setas, a formação de complexidade, que não deixa de ser o que aconteceu aqui.

— Carmo Azeredo, 2018.


PASSOU A SER O QUE JÁ ERA
HUGO CASTRO
20.04 > 06.05.2018
GALERIA DENTRO





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