O Tio Robinson

Toda a expedição permanece eterna nos despojos em que regressa. Esse é, afinal, o seu propósito.
Regressa em fragmentos arqueológicos e pedaços da história, em fatias de terra e nacos de pedra, em saques científicos e inventários de espécies, em esboços do exótico e especiarias novas, em descrições de quotidianos e valores pilhados, em destroços de confrontos e em relatos de Outros mundos.
As arcas, baús e caixotes que transportam tudo isto são membros destas viagens, tripulantes carregados do itinerário que percorrem, símbolos em si de expedição. Tudo o que encerram antevê também uma Outra existência. Objetos empacotados, etiquetados e bem acondicionados, que aguardam pelo dia em que sairão na outra ponta da viagem. E enquanto estão embalados ultrapassam a sua própria objetividade no abafo da sua identidade. Enquanto caixas fechadas são potência de tudo o que podem ter e simultaneamente cristalização do que realmente contêm.
E quando perdidas entre arquivos e sótãos, entre legados e memórias, ali permanecem eternamente guardadas, sob o desinteresse de quem as herdou ou o esquecimento de quem as têm, encerrando coisas que ficaram por contar. Identidades perdidas que, uma vez encontradas, se perguntam se deverão permanecer assim, embrulhadas na potência do que eram quando foram quando guardadas, livres de traduções de quem nunca as teve.





Madeira, vidro, metal, papel, fio do norte e objetos desconhecidos,
 2015


Figac, Viana do Castelo, 2016
Bienal da Maia, Curadoria José Maia, 2015
Expedição, Face à Bandeira, Porto, 2015